"Quand la fumée de tabac sent aussi de la bouche qui l'exhale, les deux odeurs s'épousent par infra-mince." - Marcel Duchamp

"Quando a fumaça do tabaco cheira também à boca que a exala, os dois odores se casam pelo infrafino." - Marcel Duchamp

A epígrafe acima é uma das anotações de Marcel Duchamp sobre o inframince (ou infrafino num português honesto), conceito que ele desenvolveu em fragmentos avulsos de papel, escritos sobretudo entre meados dos anos 1930 e meados dos anos 1940. Duchamp nunca os organizou em teoria nem os publicou em vida. Essas notas só vieram a público postumamente, reunidas e editadas apenas em 1980, mais de dez anos após sua morte. São pensamentos soltos, quase domésticos, sobre um fenômeno que ele se recusava a definir. Dizia que não se podia defini-lo, apenas dar exemplos. O mais célebre é o da epígrafe: quando a fumaça do tabaco cheira também à boca que a exala, os dois odores se casam por inframince.

A fumaça não é a boca. A boca não é a fumaça. Mas há um instante (uma espessura quase nula) em que uma coisa atravessa a outra e as duas se tornam inseparáveis. O calor que fica num assento recém-desocupado. O ruído de uma calça de veludo cotelê roçando ao caminhar. O intervalo entre o disparo e a marca da bala no alvo. Duchamp colecionava essas espessuras mínimas como quem coleciona o que o mundo tem de mais fino: esse interstício onde duas coisas, sem se confundirem, se tocam.

Do inframince ao infraslim

Tomo esse conceito de Duchamp e o traduzo (no sentido literal e no sentido de deslocamento).

Mince, em francês, é o mesmo que slim em inglês: fino, delgado, magro. A palavra já carrega Duchamp dentro de si, atravessada por outra língua. Mas a tradução também é um desvio, e é nele que está o que me interessa. O inframinceduchampeano é um fenômeno do mundo físico-sensível: calor, odor, som, o intervalo entre dois instantes. O infraslimopera numa camada similar mas diferente: a camada dos signos. Nesse caso o infraslim é a própria diferença que faz a diferença. Em palavras mais objetivas, infraslim é informação em seu estado puro. O algo mais fino entre o signo per see a coisa em si.

Infraslim é a finura mínima entre o signo e a coisa.

Nenhum objeto chega neutro até nós. Uma cadeira nunca é só uma cadeira. Vivemos imersos no que Yuri Lotman chamou de semiosfera: uma atmosfera de significados captados por nossas mentes, assim como captamos da biosfera sinais sensórios a partir de nossos corpos. Uma cadeira é também design, classe, uso, história, corpo, hábito, relação.

Todo objeto já é linguagem antes de qualquer toque. O infraslim é a espessura quase nula onde essa linguagem encosta na matéria que a carrega. E, mais do que isso, é também o instante em que duas dessas linguagens (que existiam separadas, cada uma vibrando no seu sistema de origem) se atravessam ou se casam. Como a fumaça e a boca. Só que aqui não são odores que se misturam, são campos inteiros de significado. O sagrado e o brinquedo. O oráculo e o disco rígido. A compaixão cristã e a não-dualidade budista.

O infraslim não é um objeto. Não é uma técnica. Não é uma obra. É um evento, e dos mais discretos.

O infraclick

No meu processo, trabalho com objetos do mundo (encontrados, comprados, herdados, fabricados) e os coloco em proximidade sobre uma espécie de mesa ou campo. Durante dias, às vezes semanas, eles ficam ali, mudos entre si. São apenas coisas lado a lado. Tudo ainda depende do meu olhar para existir como relação.

Até que algo se estabiliza. Eu chamava esse momento de click. Mas click é pouco, e é impreciso. Click é o som de duas peças que se encaixam, o estalo de um mecanismo, o "aha" de quem resolve um problema. O que acontece aqui é outra coisa: não sou eu quem encaixa os objetos; é a gravidade e o magnetismo do momento em que os objetos se encaixam entre si, sem mim, abaixo da minha decisão, abaixo do meu campo consciente.

Por isso prefiro chamar esse fenômeno de infraclick.

Infra porque acontece na camada fina, abaixo do limiar da vontade (não é uma escolha que eu faço, é uma confirmação que eu recebo e percebo). Click porque ainda assim há um evento: um instante datável, algo que estala. Às vezes literalmente: o zunido no ouvido chega antes do olho; algo range, desloca ar, e eu sei antes de ver. O infraclick é o som de um infraslim confirmado. A partir dele, a relação entre os objetos parou de precisar de mim. O campo de tensão se tornou autônomo.

A obra que resulta disso, para processos didáticos a mim mesmo e aos meus, tem outro nome: hipercolagem.

Hipercolagem: a ressonância do campo que não pára

A hipercolagem é a consequência, o infraslim é a causa. Numa hipercolagem ninguém vê apenas os objetos ou signos acoplados. Se vê ou se sente a emanação que reverbera dele.

Aqui está outro aspecto que me interessa no infraslim: ele não se esgota no instante em que acontece. O infraclick é um começo que não termina. Depois que o campo se torna autônomo, a obra continua soando. Não metaforicamente apenas. Há uma reverberação que se mantém e que, quando encontra o espectador, um som que eleva a frequencia das form-pensamentos às saídas de labirintos antigos da mente.

Essa frequencia de linguagem vibracional está sempre sendo reproduzida pela hipercolagem que atingiu o status de infraslim. Mesmo quando ninguém está olhando, mesmo quando saio da sala, ela está lá, disponível a converter-se em ressonância de elevação.

Penso na peça de John Cage, As Slow As Possible (Organ²/ASLSP), que toca neste exato momento dentro de uma igreja em Halberstadt, na Alemanha, e que está programada para durar 639 anos. As notas são sustentadas por pesos que mantêm as teclas pressionadas: uma pedra sobre a tecla, e o som não para. Um acorde pode durar anos. É uma música que ninguém ouvirá inteira, que continua soando "embaixo da terra", indiferente à nossa presença, mantida por uma pedra que aperta uma tecla quase infinita.

O infraslim é isso; o que se segue à partir de sua reverberação é uma nota sígnica que não se interrompe: uma ressonância que a obra pode produzir por conta própria, autônoma, contínua, tocando um som que ninguém sabe de onde vem mas que sempre precisará alguém para "ouvir". A hipercolagem que ressoa sozinha está apenas reproduzindo, no espaço e no tempo da galeria, um infraslim que se confirmou uma vez e que nunca mais se calará.

Diante de uma hipercolagem, a pergunta não é "o que isso representa?". É: que reorganização do real isso produz? O infraslim é o momento exato dessa reorganização: o micro-sismo em que a semiosfera se rearranja e essa nova configuração ganha corpo, peso, sombra, lugar no espaço. E som: um som que não para.

O artista, nesse processo, não é autor de heróico sentido. É mais um condensador, um transdutor: alguém que reconhece objetos já vibrando e os aproxima até que a vibração ressone em confirmação (ou não). Não posso provocar o infraslim por decreto. Posso apenas preparar as condições: coletar, aproximar, escutar, esperar. O campo decide. Ninguém decide pelo campo.

Duchamp dizia que o inframince não se define, só se exemplifica. O infraslim herda essa modéstia, e acrescenta uma aposta: a de que o invisível tem espessura. Mínima, quase nula. Mas suficiente para habitar uma obra ao mesmo tempo que também é suficiente para ser habitada por uma obra. E, uma vez habitada, suficientemente vibrátil para nunca mais parar de ressonar.

J.P. Mognon